A (boa) Família Orlof

No dia em que nasceu Lisa - diminutivo de Elisabeth - todos da família sabiam o que lhe aguardava. Seu pai, o respeitado Sr. Orlof, já havia avisado sua esposa -- Sabes o que significa o nascimento de uma mulher em minha família, senhora minha? -- E sabia. Desde o dia em que desposara aquele homem, lady Orlof, sabia bem o "acordo" que tínham com uma certa entidade - isso lhes mantinha a fortuna e o prestígio. Por isso mesmo, a parteira - nossa mãe - forjara a morte do bebê e a levara para viver conosco.


Anos se passaram, e Madelaine - mamãe, a parteira - criou Lisa como minha irmã. Minha doce e burra irmã. Sempre se metendo em confusão. Acho que já era "uma cruz que ela sempre carregou", de sua família original. Tudo ia bem, até aí.


Aos 18 anos, porém, Lisa recebe essa misteriosa carta, de , segundo ela, um suposto admirador... E é aí que entro nesta, nefasta, história.


Minha irmã, Lisa, me mostra essa carta -- Olhe, Leo, veja... Parace que tenho um certo admirador, e há de ser um homem muito rico, veja este emblema de família! --Seguro o envelope. Há um grande "O", envolto por uma serpente - isso faz com que os cabelos de minha nuca fiquem arrepiados.


Lisa, toma o envelope de minhas mãos e o abre. Ao invés de dizeres, a carta possui um baita desenho bizarro: Uma mulher, feita em carvão, jazia morta, em uma cadeira, picada por uma serpente...


Não penso duas vezes, pico o papel, e o pico novamente! Grito com Lisa, puxo-a pelo braço -- Esqueça disso, garota idiota!


Os dias passam, e recebemos mais cartas. Nem as leio, destruo uma a uma. Depois de uma semana, digo o seguinte: -- Se chegam mais cartas, serei obrigado a tomar uma atitude! -- E como se, nos ouvissem, o mensageiro chega com uma novinha em folha:


" Caro Senhor, Leonard.


Faço votos de que estejas bem. Venho através desta, humilde, carta, lhe fazer um singelo convite..."


Consigo finalizar a leitura, sem que minha, chorosa e reclamona, irmã leia. Digo à ela: -- Já para o seu quarto, garota tola! Sairei e acabarei logo com isso! -- Contrariada, ela sai. Pego, então, meu casado e chapéu e saio.


Acontece, que o convite, vinha da casa dos Orlof. Como não desconfiei? Mamãe, em seu leito de morte, me pediu para que nunca deixasse que Lisa, pisasse nem na rua dessa gente. Nunca!


Chego à casa. Às luzes estão acesas e o portão, aberto. Entro e paro à frente da grande porta, com fechaduras de ouro - meu Deus, essa gente deve mesmo ser muito rica! - crio coragem e bato, duas vezes. Rapidamente, um homem miúdo e atarracado, vem e me atende. Ele estica sua mão, cheia de rugas, para recolher meus pertences, eu, gentilmente, lhe nego - não entregarei meu casaco - viro e olho para o grande salão, tudo é trabalhado em vermelho e dourado. Ouço a porta batendo, às minhas costas, me viro para ver o miúdo, mas este já havia sumido.


Uma música toca, uma horrorosa e repugnante, sonata vinda de um piano em algures. Sigo aquele som, e me deparo com um homem, muito bem vestido, está sentado, enquanto toca. Então, ele para sorri e diz: -- Ficarás parado aí ou o quê? -- Entro em seu escritório.


O homem é jovem. Acende um charuto, me oferece... Eu, claro, nego. Meus cabelos da nuca, se arrepiam, um pouco mais. Sem pensar, lhe digo: -- Achava que o Senhor Orlof, não tivesse tido mais nenhum filho!". O rapaz, sorri mais uma vez - sinto-me fascinado e assustado - e então, ele diz -- Como estás, meu caro rapaz? -- é impressão minha, ou ouço uma espécie de sibilo? Não deixo que continue: -- Senhor Orlof! Só vim até sua casa, nesta noite, apenas para lhe ordenar que, PARE de atormentar minha irmã, com suas cartas!


O homem gargalha de minha cara e me olha - seus olhos, maquiavélicos, brilham - e diz: --Ordenar? Ninguém me ordena nada. -- Ele levanta - rápido e rasteiro - eu levo minha mão ao bolso, tateio, em busca de algo que sempre me acompanha, enquanto ele continua -- Fiz um "acordo", tempos atrás, com os membros desta, boa, família. E foi acordado, que à mim pertenceriam, todas suas mulheres...


Continuo procurando - mudo o bolso, enquanto digo a ele -- Lisa pode ter nascido Orlof, mas nunca possuiu este, maldito, sobrenome. E nem nunca - usufluiu - deste - maldito - tesouro! Todos os outros Orlof, pelo que vejo, estão mortos. A dívida está paga!


Agora o demônio em minha frente - pois é isso que deve ser - gargalha tanto, que penso sentir o chão tremer. Depois, ele se contém e me diz: -- É ingênuo, meu rapaz, tanto no pensamento, quanto em pensar que "isso" que procuras, poderia, de certo, vos ajudar.


Monstro desgraçado.! Ele sabe de meu crucifixo abençoado...


-- Mas sabe, meu bom garoto - ele continua - Não estás totalmente enganado. Não. Não há mais Orlofs, então, depois que eu leve nossa querida Lisa, não terei mais quem me pague os tributos...


Aquele diabo, pensa que aceitarei isso....


-- Técnicamente, esta garotinha - sua irmã - pertence a vossa família. Portanto, lhe proponho o seguinte. Saia, agora, do meu caminho, e toda a fortuna e prestígio, que um dia foi dos Orlof, será de vós!


Sinto-me enojado, e lhe pergunto -- Quem és tu, Diabo? -- Ele ri e diz -- Digamos que sou um funcionário -- Eu, nervoso, gaguejo e pronuncio -- Achas mesmo, monstro asqueroso, que me curvarei e que lhe darei minha irmã, por troca de ouro? Jamais lhe entregaria, minhas senhoras, minhas mulheres, sejam filhas ou irmãs...


Mais uma vez, ele sorri. Só que desta vez, sinto que é diferente. E então, ouço leves passos, logo atrás de mim. Me viro, e vejo Lisa, minha problemática irmã, parada, com o olhar assustado e com uma faca em mãos. -- Lisa, sua imbecil! -- Lhe digo eu -- O que fazes aqui? Dê-me a faca e deixe que eu mate este demônio!


Lanço um olhar, ligeiro, para o monstro, que, misteriosamente, não está mais diante de mim. Me apresso, nervoso, voltando-me para Lisa -- Anda, vamos embora -- Quando olho em seus pés, ela tem uma serpente, muito próxima - mas ainda não pronta para atacar - lembro-me do desenho -- Elisabeth - me aproximo dela, agachando-me, dando-lhe às costas - Não mexas, um músculo, segurarei a cobra pela cabeça. Dê-me a faca, vou cortar-lhe a cabeça...


Antes que eu termine de falar, porém, sinto uma dor... As costas queimam, e a serpente sai dali, inofensiva. Eu caio no chão, me arrasto e me viro, e então, eu ouço: -- Garoto tolo -- é a voz do estranho homem -- Pensas mesmo, que ofereci, esta grande chance, somente a vós? - a dor chega no auge e então, não sinto mais minhas perna, meus sentidos estão fracos, mas ainda assim, sou capaz de saborear o gosto de sangue - do meu sangue -- Nem todas estas cartas, passaram por você -- Continuou o monstro -- Além do mais - como muito bem expliquei a vossa irmã - o pagamento, não necessáriamente, precisa ser uma mulher... Isso foi uma escolha do antigo dono desta casa....


--Li-lis-a - Balbucio - O que fizestes?


Então, a última coisa que vejo é, o tosco sorriso, de minha tosca - e traidora irmã - e então, tudo é escuro.

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