A Herança

Atualizado: 19 de Set de 2020

Logo cedo, recebo esta estranha ligação:


Do escritório C, de advocacia, e me dizem que sou a herdeira de alguém, mais precisamente da família H (família a qual não pertenço).


Acho estranho, pois não tenho nenhum amigo por aqui, mas ainda assim vou até o escritório. Lá não há maiores explicações sobre minha herança, apenas me disseram o seguinte:


--Srta. Teresa B, cuidamos por gerações, do patrimônio da família H, e você é herdeira deles, desde o dia em que nasceu. A única coisa, é que não sabemos lhe dizer exatamente do que se trata tal herança, porém há algumas exigências.


O Sr. C dá um sorrisinho e aponta o filho:


--Você tem de ir até ao banco, com um de nossos advogados, e meu filho Larry é quem irá acompanhá-la. E lá você fará uma prova de vida.


Ao olhar o tal Larry C., vejo com certo alarde, seu rosto bonito e de olhos maldosos – ele não tem muito mais do que 40 anos – já neste instante, percebo que não gosto dele.


Vamos, então, ao banco.


Lá, nos atende um agente de contas, um homem cadavérico, que aperta gentilmente minha mão:


-- Senhora B. – A voz dele é rouca e grave – Mas terá de fazer isso sozinha, o seu advogado deve ficar aqui.


Larry C, automaticamente, amarra a cara. Eu não posso deixar de sorrir, ao ver o homem arrogante ser obrigado a ficar para trás.


Me surpreendo ao perceber que o velho do banco, me leva ao elevador e vamos a uma sala no subterrâneo.


-- Senhorita B – diz o idoso – antes de entrarmos na sala de seus pertences, por favor, poderia picar o dedo aqui?


O velho tem em mãos, uma espécie de exame, onde eu pico meu dedo em busca de alguma confirmação. Como estou muito curiosa para saber do que se trata a herança, aceito sem nenhum protesto. No estranho aparelho, acende-se uma luz verde.


-- E agora? – Pergunto eu.


-- Agora, iremos aos seus pertences.


Fico ansiosa. O que poderia ser? Dinheiro? Não sei, mas acho que deve ser mais do que isso.

Entro – agora sozinha – em uma ampla sala. Há apenas uma pequena mesa, contendo uma carta, uma chave e uma adaga.


Primeiro leio a carta:


“Querida Teresa,


Quando ler esta carta, saiba que estarei morta.

Você pode até não saber, Teresa, mas você veio de uma família especial (assim como a minha). Você perdeu seus pais cedo demais, e por isso passou de casa em casa. Eu não levo jeito com crianças, mas ainda que não tenha te acolhido em minha casa - e criado como uma filha - escolhi-a para herdar algumas coisas que foram minhas, desde sempre. Principalmente para que herdasse meu maior trunfo.


Primeiro, anote este endereço: ... a casa que fica nele, agora é sua. Vá até lá e receba o que é seu. A chave de ouro é uma chave mestra desta casa, só assim poderá abri-la. Também há uma quantia em dinheiro (mas acredito que você não precise disso – estou orgulhosa por você ter usado aquele fundo que lhe enviei anonimamente, para fins de estudo). Por fim, lhe digo, se um dia, estiver em um mal momento, corra até o porão daquela casa, o que tem lá, é sua principal herança.


Espero que use isso para fazer o bem.


P.S: A adaga, deve ser usada, caso você não possa controlar o que foi deixado a você.


Votos de boa saúde.


I. A. H.”


Então percebo que mesmo tendo passado de lar em lar, alguém me conhecia. E foram essas mesmas pessoas (ou pessoa), que bancaram meus estudos, quando fiz 18 anos. Do contrário, jamais teria me tornado psiquiatra. Isso é curioso. Pensar em alguém que não te conhece, ajudá-la a tornar-se alguém na vida!


Saindo da sala, o velho banqueiro me diz:


-- Senhorita B., antes que receba sua quantia em dinheiro, é mais que imprescindível, que você vá até a casa e receba primeiro o que está lá (lá ainda há mais uma senha). Por favor, faça isso hoje.


Não posso deixar isso para lá. Quero ir àquele porão, mais do que tudo.


Larry C. toca em meu braço:


-- A acompanho até sua nova casa! Iremos no meu carro.


Não nego a carona, pois estou distraída... Mas então, já no carro, penso: Como ele pode saber da casa? Bom, talvez sendo o advogado, ele saberia.


Chegamos à casa. Ainda bem, pois não aguento mais os olhares maldosos de Larry, em direção às minhas pernas. Quando paramos, digo a ele:


-- O senhor, por favor, pode ir embora. Agradeço a carona.


-- Ah – sorri o homem – se existe algo que não farei é isto. Irei contra seu desejo e entrarei com você. Jamais permitiria que fosse sozinha a uma casa, praticamente, abandonada. Pode haver gente vivendo aí!


Penso um instante: O que prefiro? Arriscar a ter algum desconhecido dentro da casa, ou encarar esses olhares estúpidos, por mais alguns minutos? Decido deixá-lo ficar e entramos na casa.


É um belo lugar. Os móveis, porém, estão cobertos por lençóis, amarelados e empoeirados. Junto a mim, Larry C. entra (cuidadosamente), em cada cômodo, até que só restava o:


-- O porão – diz ele – Agora podemos entrar lá e finalmente poderei deixá-la.


Pensei novamente, acho que prefiro ir sozinha até lá, obrigada!


-- Façamos assim – eu lhe digo -– O senhor pode ir. A mim, não me parece que haja alguém na casa. Além de que, um amigo meu está a caminho, para ajudar com a limpeza – Minto.


-- Prefiro insistir – Diz ele.


-- E eu prefiro declinar e convidá-lo a sair. – bato o pé.


Larry, nada diz.


Vou até à porta, mas antes que eu consiga abri-la, Larry C, finalmente mostra sua verdadeira face, saca uma pistola, apontando-a, imediatamente para mim.


-- Nós, com certeza, iremos ao porão – me diz – Esperei anos para ter o controle do que a família H esconde aqui! Mas por alguma razão, nunca consegui abrir essa casa, ela está protegida. Muito bem protegida. Só esta sua chave, foi capaz de abri-la. Hoje, finalmente, os advogados C porão as mãos neste tesouro.


O estúpido, segura firme em meu braço e me arrasta ao porão. Me lembro, então, dos dizeres da carta:


“Se um dia, estiver em um mal momento, corra até o porão daquela casa, o que tem lá, é sua principal herança”.


Mas o que pode haver no porão, capaz de me ajudar a escapar do que quer que esse Larry pretenda fazer? Uma arma? Um quarto do pânico? Magia?


E então vem o susto! Aquele escroto, me arremessa escada abaixo. Ao cair, sinto uma dor forte ao bater meu tronco no chão. Levanto um pouco a cabeça e como todo o resto da casa, percebo que tudo está coberto por lençóis, mas diferente do resto da casa, estes estão repletos de manchas de sangue!


Meu coração, sai pela boca! Porém, o doido Larry, parece não se importar. Irritado, ele levanta cada lençol, berrando:


-- Onde está? Onde está?


Penso em minha adaga e me lembro – com raiva – que me esqueci dela na sala, dentro de minha bolsa.


Decido observar melhor o quarto: meus olhos vasculham rapidamente tudo, em busca de algo que possa me ajudar... E então avisto um alçapão! Torcendo, para que eu possa entrar ali, pulo, criando nova força, e corro até ali.


Quando chego perto o suficiente, de abrir a portinhola, o som – estrondoso – vem acompanhado de uma terrível dor em meu ombro esquerdo! A bala atravessa-me. E eu GRITO!


Larry berra:


-- Sua piranha, vagabunda!! Então você sabia todo tempo, onde devia procurar?


O doido me agarra e eu o chuto, correndo novamente, em direção ao alçapão, mas novamente o idiota agarra-me pelos pés! Eu caio. Me arrasto de costas para o alçapão, esquecendo um pouco da dor.


E então, percebo a fisionomia, irritada de Larry, mudar. Ele sorri, de maneira demente, para algo atrás de mim. Sinto o ar congelar e paro.


-- Estou aqui! – Berra Larry – Trago a você este sacrifício e assim assumo o seu comando, hahahaha!


Ouço um som de arrepiar, próximo ao meu braço no chão. Acontece que a, há uma poça de sangue (do meu sangue), e me apavoro ao perceber que alguém lambe aquilo, como um cão toma água, sons de lambidas... Meus pelos da nuca arrepiam, e meu coração gela, pois vem a terrível voz:


-- Trouxe-me um sacrifício, humano? Seria este sangue, puro, como o de uma virgem?


Percebo o sorriso de Larry travar por algum momento, não tenho coragem de virar:


-- Provavelmente, esta mulher tem o sangue impuro, de vagabunda! Ouvi dizer que uma de suas mães adotivas a expulsou de casa, parece que estava enroscada com o “pai”...


Neste momento, esqueço do meu medo – e também da dor – Como esse monstro ousa?


Pulo, naquele idiota, e enfio minhas unhas no rosto dele. Uma mão velha, escura e de aparência estranha ( tanto que não sei explicar ), segura-me agilmente e me diz:


-- Fique quieta!


Não sei porque, mas o ouço e me sinto um pouco mais calma.


-- Meu bom Conde – diz Larry – Não se preocupe. A você trarei outras que são virgens. Por enquanto se contente e deleite-se com esta mulher. Então, jure-me lealdade, e sairá deste porão.


Uma risada, maligna e debochada, sai do ser atrás de mim – sinto-me zonza – crio coragem e viro-me, de modo a encarar tal criatura. Porém, antes que eu consiga -- sinto que vou desmaiar...

(continua).

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