A Herança parte II

Acordo. Não estou mais no porão. Aliás, não estou mais na casa. Pelo o que vejo, estou em um quarto de hospital.


Como vim parar aqui?


Me esforço, buscando em minha memória o que houve no final daquela noite, mas a única coisa da qual posso me lembrar é... Sangue. Pedaços, algo que me lembra de ossos. Meu Deus, o que houve com Larry? O homem pode ser o que for, mas ... Bom, devem ser os remédios, afinal, estou ferida.


--Senhorita B. – A voz da enfermeira quebra minha concentração – Vá com calma. O seu braço voltou a sangrar!


--Diga-me – pergunto eu – Como vim parar aqui? Eu preciso saber...


--Acho que foi o seu advogado, um homem um tanto esquisito, se me permite dizer, mas parecia preocupado. Deixou uma quantia alta em dinheiro, para que não chamassem a polícia... Mas se você nos disser que ... Bom, você sabe!


--Não! Por favor, não envolva a polícia nisso!


Larry? Isso não faz sentido. Vendo minha confusão a enfermeira continua.


--Ele lhe deixou às flores – aponta o criado mudo – E também o bilhete.


Realmente, me dou conta que há lindas rosas, acompanhada de um belo cartão. Eu o abro e leio os seguintes dizeres:


“Minha cara Tereza, Como está?


Gostaria de lhe dizer que sinto muito por tudo o que teve que passar, para receber sua herança, em sua casa nova. Foi no mínimo abominável. Dito isso, só posso confirmar o que eu já imaginada, a Senhora I. H., fez uma ótima escolha, quando optou por você, para herdar o seu legado.


Assim que sentir-se bem, venha me encontrar a noite, novamente, em sua bela casa. Tomamos a liberdade de realizar alguns reparos.


Votos de boa saúde.


Larry C.”


Os dias no hospital se arrastam, cheios de pesadelos e mal estares. E então finalmente, recebo alta.


Eu devo chamar a polícia, mas não é isso que decido fazer. Eu preciso saber o que, de fato, houve há noites atrás. E é por isso que vou até minha casa, para encontrar-me com Larry C.

Claro, não sou estúpida, depois de tudo que vivenciei lá dentro – depois de tudo que vivenciei minha vida toda – levei minha pistola carregada, está logo aqui, escondida em minha bolsa. E não posso me esquecer, ainda temos a criatura monstruosa, que vive em meu porão - não imagino o que usar contra ele.


Enquanto crio coragem, parada à porta, um senhor a abre, sem que eu bata:


--Senhora, Teresa. É um prazer. Estamos esperando por você há dias. Sou V. seu mais novo criado. Tenho acompanhado a família H, e agora estou aqui para servi-la.


Ao entrar na casa. Ela está limpa. E os móveis apesar de serem da época vitoriana, estão em ótimo estado. Seguro minha pistola, do lado de dentro da bolsa, não deixo que o sorriso daquele tal V, me engane.


--O seu anfitrião e servo, lhe aguarda no escritório, que está instalado no porão.


No porão? Larry C. ousava instalar um escritório no mesmo lugar que tentou me matar? Não importa. Estou disposta a arrancar cada detalhe que me falta, daquele fatídico dia. Depois irei entregá-lo a polícia.


Finalmente, já no porão, vejo um homem parado, em meio aos móveis, igualmente bons, parado em frente à mesa:


--Até que enfim a vejo novamente.


A voz é grave. Acontece, que não se trata de Larry.


É um homem de rosto longo e branco. Cabelos lisos e espalhados pelo rosto. Por trás das mechas caídas, olhos – que de longe pareciam ser muito vermelhos.


--Você não é o Larry! – Digo sem pensar.


--Por favor, Teresa. Não me decepcione com comentários óbvios, afinal, será minha mestra. Me mostre a Teresa que vi naquela noite... A que me apaixonou. A que está pronta para fazer oq ue deve ser feito!


--Do que é que você está falando, criatura! – Seguro a arma e a aponto para tal monstro.

Ele não se importa. Pelo contrário, gargalha de maneira quase maníaca, por mais de um minuto.


--Você me diverte – continua o monstro – Acha mesmo que isso pode me causar algum dano? Ora... Afinal, minha mestra, não quer saber o que houve?


Aceno positivamente com a cabeça – tremendo da cabeça aos pés.


--Larry C – o verdadeiro monstro – não existe mais. E hoje, um pouco antes de que você chegasse, acabei com as frutas podres na companhia de advocacia, incluindo o pai. Sempre disse à I.H. que trocasse de advogados! Hahaha.


--Quem é você monstro? – Repito, sentindo minhas pernas tremendo.


Antes que eu perceba, tenho a impressão que o homem se torna quase uma fumaça, e aparece em frente a mim, tirando a arma de minhas mãos. Suas mãos frias, tocam o meu rosto, e instantaneamente, paro de tremer:


--Lembre-se. – Ele sussurra em meu ouvido...



.

Novamente sangue e mais sangue - é a imagem que vem em minha mente.


Larry grita para que a criatura me mate:


--Acabe com ela, e entregue seu comando a mim... CONDE.


Ouço a mesma risada sádica, ricochetear pelo porão, e ele olha para mim:


--Minha doce Teresa. Eu provei o seu sangue, e agora, tenho um vislumbre de seu passado, presente e quase posso ver o seu futuro... Isso nos trouxe um vinculo.


--O que é você? – Digo eu, tremendo.


--Eu sou, minha querida princesa, apenas um antigo Conde, que foi capturado por humanos que me fizeram respeitar os seus desejos. Caçamos criaturas juntos, e outras ameaças... E agora, provando o seu doce sangue, aceito-a,Teresa, aceito-a como minha mestre...


--O QUE? – Berra Larry. – Eu a trouxe aqui, seu monstro! EU SOU SEU MESTRE POR DIREITO!


A fumaça me transpassa, e transforma-se em um homem de aparência velha – mas ainda astuta – fazendo com que Larry atire mais uma vez. O idiota erra e eu me abaixo, no chão, tentando me esconder de tudo aquilo.


A transformação de minha herença, é horrível, não poderia nem achar uma maneira de descrever. Todos os seus dentes são pontiagudos, e ele tem uma longa e feia garra – garra essa que o Conde usa, para arrancar um dos braços de Larry C.


Todos berramos! – incluindo o monstro (de tanto prazer).


Antes que ele mate Larry C, porém, olha novamente para mim e diz:


--Minha doce princesa... Eu caço, prendo, machuco, me divirto... Mas só posso levá-lo comigo – só posso puxar o gatilho – se você der as ordens! Devo matá-lo?


Impressionada, não sei o que dizer... Enquanto isso Larry C, implora pela vida!


--NÃO, POR FAVOR! CONDE! EU TRAGO QUEM VOCÊ QUISER! LEVE A VADIA E NÃO A MIM!


--Essa é a imundice da sua raça. – Diz a criatura enojada – Odeio levar comigo esse tipo de gente, mas estes são os que sobram... HAHAHAHAHA. Agora, Teresa. Dê a ordem...

... DÊ A ORDEM TERESA! MOSTRE QUE NÃO É UMA FRACASSADA. QUE NUNCA MAIS VAI DEIXAR NINGUÉM MACHUCÁ-LA!


E então, as palavras saem da minha boca, e com um único “sim”, permito que um monstro – inumano – devore o outro.

.

.

Acordo de meu transe – quase hipnótico – entendendo que o Conde não é o único culpado.


E agora, com o meu último esforço, antes de aceitar minha herança, pergunto mais uma vez ao Conde:


--O que é você?


--Sou o que vocês chamam de... Vampiro, ou bruxo, ou o que mais vocês inventam, para justificar muitos atos profanos. Nunca entenderei a sua espécie, minha doce Teresa. Mas você, não se culpe. Assim como I.H. usou de sua herança, para fazer o que ela julgou ser certo, você fará o mesmo...


--Então é isso, meu Conde? Essa é minha herança? – Pergunto me deixando ir para os braços do Vampiro.


--Sim, minha doce e linda Teresa. Agora, alimente o seu servo, e vamos continuar o trabalho da família H e estirpar os outros monstros da Terra.


E é assim, que eu Teresa B. aceito o meu destino, sabendo que essa não será a única vez que aperto o gatilho de meu maldoso Conde... Ou seria o bondoso Conde? Um herói que elimina monstros que vagam em busca de suas vítimas indefesas... Nunca saberei dizer.

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