Cora Confeitaria e Café

Bolinhos, de variados tamanhos e cores. Esta é a nova cafeteria da cidade, mais precisamente em minha rua - ao lado de minha casa.


Além de deliciosas guloseimas, tem uma pessoa incrivelmente meiga, que é, não só a dona do lugar, mas também mora na casa em cima da confeitaria. Suas chiquinhas loiras e compridas, seus vestidinhos rosas, cheios de babados e frufrus, olhos grandes e agradáveis, me dizem muito sobre minha querida e gentil, Cora.


Chego, todos os dias de manhã, e ela me diz: -Ei Lilo, como você está? - Sorrio e aceno, e em resposta ela me diz - Olha aqui, querido Lilo, esse docinho é somente pra você, tem um sabor especial, daqueles que você nunca mais vai provar... Possui um ingrediente único!


E me dá uma amostra de um doce que ela diz ser especial!


Um desses dias, na TV, vemos o seguinte caso:


- Garoto desaparece na cidade. Sumido há dois dias.


- Caramba! - Diz Cora - Sabe, acho que esse garoto veio aqui outro dia e nos deu uma nota negativa nas redes sociais...


- Parece que está desaparecido. - Digo eu.


- Prove mais um pedaço, aqui... - Ela me dá um pedaço de doce na boca. - Esses são os melhores!


Não entendo, mas a matéria sobre o garoto sumido acaba.


Passam alguns dias e em todos eles, Cora continua me dando seus mais deliciosos docinhos. E então, noto mais um sumiço.


- Sabe, essa garota que sumiu, trabalhava aqui, não é? - Pergunto eu.


- Ela era bem exótica, não era? - Sorri Cora - Acho que é por isto que esse doce não ficou tão bom, não acha?


Aquilo me deixou intrigado. Por um instante, parece que Cora fala - insinua - que sua funcionária é um dos ingredientes de sua torta. Não, ora, deixe isso pra lá, penso eu.


Vou pra casa, mas mal consigo dormir. Penso nesse assunto o dia todo. Que imaginação essa a minha. Mas pensando bem, todos os jovens que somem, têm alguma relação com a cafeteria de Cora. Será que é possível?


Ok. A curiosidade vence. Saio da minha casa e vou atrás da cafeteria. Lá eu sei, é onde está a grande cozinha, que Cora prepara seus (tão deliciosos) docinhos. Então, ouço um sonoro lamento vindo lá de dentro. Espio pela janela. A cena que vejo me deixa chocado...


Há um rapaz, preso em uma gaiola, no meio da cozinha. Dou um jeito e entro.


- Socorro! - Berra o pobre.


Percebo o seguinte, eu sei quem é o garoto. Trata-se de Bóris M. Um dos meus mais detestáveis colegas de faculdade.


- Ora, ora, ora! - A sonora voz de Cora, vem de dentro da cozinha, ela também está lá.


O vestido rosa de Cora, apesar da cozinha estar suja pelas paredes - de sangue velho - estava rosa e em plena condição de limpeza.


- Por que fez isso a ele? - Pergunto eu.


- Ora, deixe disso. Você gostou muito da perna dele... - Disse ela sorrindo.


Acho que vomito.


- Xi xi xii, vamos deixe disso... Você já fez isso outras vezes!


- Você quer dizer... Todos eles? - Digo, em choque.


- Todos eles.


Não sei o que fazer, saio correndo, vou até minha casa. Devo ligar para polícia? Não sei se adiantaria, visto que, imagino, Cora deve ter fugido.


No dia seguinte, passo em frente ao café, e Cora sorri de longe pra mim (não acredito que ela não fugiu). Pior do que isso, em plena luz do dia, a garota corre com seu vestido bufante em minha direção.


- Diga um nome! - Fala pra mim.


- Do que você está falando? Achei que estaria longe daqui - Digo afobado.


- Não finja. Não precisa fazer isso pra mim! Diga um nome, e se depois disso ainda quiser vomitar, eu mesma me entrego a polícia. Caso contrário, garanto que esta será sua melhor refeição e poderemos ficar juntos para sempre!


Antes que eu pense, antes que eu tome uma atitude, um nome me vem a cabeça - Vitor A. - garoto este, estuda comigo desde criança. Eu o odeio.


Cora sorri, e sai.


O que foi que eu fiz. Será que condenei o garoto?


Dois dias se passam. Não ouso ir ao café de Cora.


Na faculdade, uma das garotas - minha amiga - traz alguns doces em sua lancheira - doces esses que comemos lambendo os beiços.


- Nossa... Você mandou muito bem com estes doces! Não sabia que cozinhava assim tão bem.


- Ah não! Esses da lancheira, comprei na Cora Cafeteria, inclusive, ela me disse que você iria amar estes. Não sabia que eram tão amigos!


Saio correndo, sem saber muito bem onde devo ir. Sem que eu perceba, meus pés me levam até a Cafeteria da Cora.


Ali eu entro e sento. Cora vem até mim, senta-se em minha frente.


- Como estava o seu lanchinho? - Sorridente ela faz um biquinho com seu batom cor de rosa.


- Você tinha razão, foi uma das melhores coisas que já comi.


Ela estica suas, delicadas, mãos. E eu, sem jeito, me levanto e juntos vamos até a cozinha, do lado de fora.


E assim começa uma grande e nova amizade.

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