O Veredicto


Quem vê este homem, de sorriso manso, rosto redondo e até simpático, não pode imaginar o que ele fez.


A mulher era quase como um anjo. Possuia a família margarina, perfeita. Quando me mostraram uma foto dela no hospital, e em seguida vi o estado deplorável em que se encontrava (deitada em um leito, quase 40 kilos e faltando-lhe algumas unhas), fiquei petrificado.


--Hoje descobrimos que ela tem sido envenenada. Um desses venenos quase imperceptíveis. -- Disse o médico.


Lhes digo: Os primeiros suspeitos são sempre os familiares. Neste caso: um marido e cinco filhos (apenas um de ambos, os outros quatro, eram dois da mãe e dois apenas do pai).


--Foi ele! Tenho certeza que esse safado tinha outra, além da minha mãe!


A opinião da filha mais velha, ainda hoje, era a mesma.


Depois, sem muito o que trabalhar, parti para os vizinhos. Um senhor, mais maduro e sozinho, e um casal, que moravam ao lado. Mas é claro, ninguém sabia de nada.


Seguimos assim, até que o crime de tentativa de homicídio, tornou-se um. Nunca nem pude falar com a mãe, morreu no hospital.


Naquele momento o covarde estava a sorrir. Mas eu conheço jurados irados, quando os vejo, e creio que estes não deixarão passar batido. De hoje, esse cara não passa. Matar assim, dois membros da mesma família?


--Foi o mesmo veneno.-- Me contou o médico, sobre o garoto que havia morrido.


Quando morreu o rapaz, fiquei muito chateado. Afinal, ainda não tinha nada. Era como se eu fosse a porra do assassino!


Foi aí que o verdadeiro assassino começou a dar bandeira. Eles sempre ficam curiosos, para saber o que temos em mãos e como andam as investigações. Aí finalmente, pude investir contra ele.


Hoje, finalmente, esse filho da mãe, assassino, será condenado. Falta pouco tempo agora, nos chamaram de volta, apenas para as considerações finais, o juri está prestes a deliberar.


Com as provas coletadas, não há sombra de dúvidas de quem seja esse criminoso. Acreditam que tudo o que este infeliz usou foram: um abridor de latas, uma garrafa de vidro de refrigerante e um frasco de veneno, imperceptível, mas infalível? Acontece que a família guardava os refrigerantes no quintal, e pra ele, como vizinho, foi fácil fazer isso sem ser percebido. Tudo porque, aparentemente, ele não gostava dos barulhos das crianças. Mais pra frente ligamos uma morte mais antiga, a do cachorro, como sendo do mesmo assassino. Filho da puta, quem mata um cachorro?


Enfim, agora a vizinha (esposa do meliante) não consegui acusar. Está aqui, sorrindo pro maldito. Mal sabe ela, como é visitar esse tipo na prisão.


--Das acusações de duplo homicídio, declaramos o réu... Inocente.


Com um soco, acerto a cadeira logo à frente da minha.


--Ordem! -- Berra o juíz.


A família chora. Para eles, jamais haverá justiça.

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