Um amor de Mulher 2 - Conheça Cléo Saraiva

Olá, meus queridos artistas no escuro, como vocês estão?


Gostaria de compartilhar com vocês, algo incrível, que eu tive o privilégio de fazer. Em minha busca por autoras mulheres e pretas, e nessa minha busca pelo feminismo (onde ele mais precisa de luta), encontrei – fui encontrada – por uma página no instagram chamada @umamordemulher2. Entrei na bio, e imagine minha deliciosa surpresa, ao ver que tratava-se de uma página de contos! Quem acompanha o que tenho escrito por aqui, sabe que eu amo um bom conto. E minha surpresa só aumentou, ao perceber que tratariam-se – a página ainda está em construção – de contos eróticos de uma escritora preta. Naquele mesmo momento, senti a obrigação de, não só participar daquela página, mas descobrir a pessoa por trás dela. Tomei coragem e mandei uma mensagem via DM. Logo no dia seguinte, recebi alguns áudios, que me deixaram, no mínimo, empolgada.


O que saiu dessa pequena coragem? Saiu um conhecimento, sobre uma escritora única, cheia de foco, e firme em suas ideias e em sua escrita. O nome dessa escritora – e vos digo, novamente, guardem esse nome – é Cleonice Saraiva.


Sobre a pessoa por trás do nome, Cleonice Saraiva tem 32 anos, estudante de Pedagogia e em suas próprias falas ela é “nordestina, pernambucana, recifense e olindense”, além de ser “filha de Nazaré e neta de Bernadeth”. Só aí, você já pode imaginar, o quão rico, serão estes contos, únicos e cheios de regionalismo – além de que a Cleonice só pode ser uma escritora muito especial (um amor de mulher, rs), por ter tantas regiões que à pertencem. Cleo, também é pansexual (deixarei uma breve descrição explicativa, caso você não conheça esse termo, lá no final do texto*), maravilhosa e candomblecista.


Num leve e gostoso relato, sobre sua escrita, Cleonice Saraiva, me contou um pouco sobre suas primeiras experiências de palavras:


CS: “Meu contato com a escrita, foi muito cedo – não com a escrita erótica – a escrita mais tradicional. Eu me apaixonei pela escrita, no ensino médio, mas comecei a escrever com nove anos. Botava as coisinhas do meu dia a dia no diário (eu adorava)”.


Não sei você, querido artista, mas nessa parte, senti-me extremamente conectada com a Cleonice, visto que, sempre tive essa escrita de diário comigo, e deu até um quentinho no coração, saber que outro alguém, lá do outro lado do nosso país, fazia algo parecido, a sua maneira. Ainda que a Cleo, descreveu que já tinha um toque – de leve – do que viria, anos depois, em seus contos:


CS: “Então, começou muito nessas, de contar histórias. E acho que, essa relação de contos – só que agora eróticos – vem muito dessa minha infância.

Como foi o beijo, se foi estalado, se não foi. Já tinha uma veia aí, né? Uma veia erótica, porque eu descrevia muito, os detalhes das coisas que aconteciam comigo. E eu vim entender, essa escrita erótica, há dois anos - eu venho olhando pra ela com carinho...”


Cleo, também comentou, que não começou, logo de cara, com esse tipo de escrita:


CS: “... Eu sempre fui mais pelo caminho dos poemas, das poesias marginais*, transgressoras*, algumas slam* - mas nunca fui de participar de slam, nem nada – fui de escrever”.


Depois desse relato da Cleo, fiquei pirada (num sentido bom), pois ela explicou, lindamente, sobre o autoconhecimento, sobre o corpo.... O corpo, minha gente. Sempre pensei nele, como um reflexo muito vago, de quem realmente somos, mas confesso, que a Cleo, me trouxe uma nova perspectiva, um novo olhar, sobre o que pode significar o corpo de alguém:


CS: “E hoje eu estou muito nessa pegada, desse autoconhecimento feminino e de como esse corpo, se manifesta”. E aí, após uma breve pausa, ela disse assim: “Esse corpo preto. Falar dessa sexualidade preta, desse erótico, não é o mesmo que falar do erótico branco, porque são de perspectivas bem diferentes. O que é uma mulher, o que é um homem preto, do que são, um homem e uma mulher branca. Então, é outra pegada de conto erótico, bem específica... Bem direcionada”.


Eu, Carolina, nunca havia pensado, nessa diferença de corpos, nessa diferença da representação da sexualidade, de como veio para o branco e de como isso veio para o negro, mas depois que ouvi, esse relato da Cleo, pensei... “CARA, isso tem tudo a ver, isso faz todo sentido”. Nossos ancestrais – brancos – como eles trataram esses homens e mulheres negros – principalmente, em relação a sua sexualidade?” É, a Cleo me deu muito no que pensar e refletir.


Ela continuou:


CP: “E aí, eu venho dessa quebra. Eu sou uma mulher pansexual – é importante dizer – e dentro dessa... Perspectiva da pansexualidade, eu me relaciono com homens e com mulheres. Só que faz muito tempo que não me relaciono com homens, então, meus contos eróticos, ainda são muito voltados à mulher. Ligados à mulher. Eu tenho poucos contos que falam da relação com o homem. São muito diferentes dos contos tradicionais...

Pra finalizar, construir esses contos, pra mim, é construir uma nova possibilidade e contar outra história da vivência de mulheres negras, e da forma que elas expressam e se relacionam, não só sexualmente, mas também, para além do sexual. Pois a mulher e o homem negro, eles vêm de locais de hiper sexualização e de violência... Esses corpos... E de nenhum cuidado, ao lidar com esses corpos, de um lugar muito diferente. Então, a ideia é de humanizar esses corpos e essas relações. É basicamente isso, os meus contos eróticos, eles humanizam as nossas relações e os nossos corpos.


Junto com isso, tem toda uma questão de afeto, por ser importante, por ser assim que eu lido com as minhas relações e com às pessoas, pretas, que convivo. Esses contos, eles podem ser lidos por qualquer pessoa, mas eles são feitos por uma pessoa preta, para pessoas pretas lerem e se verem e se enxergarem nos seus contextos e em suas especificidades. Essa é a parte importante dos meus contos e das minhas escritas”.


Acredito, amigos artistas, que já devemos nos preparar, pra essa leitura, que será muito rica, não só na leveza do sexual preto (trazendo essa humanização, dita pela Cleo), mas também por uma escrita cheia de “sotaque e gírias específicas”, citando Cleonice.


E aqui, queridos, finalizo eu, lhes dizendo que, esta maravilhosa mulher e escritora, preta, está com a página no instagram, esperando por nós, para que, como mulheres (e mesmo você homem) – ainda que o foco dela seja em pessoas pretas – venhamos a ler estes contos eróticos e humanos, cheios de ternura e afeto. Novo. Partindo dessa ideia, linda, de alguém que tem a voz acalentadora – não só a voz real – mas também a voz artística, cheia de beleza e encanto.


Confiram mais da Cleonice Saraiva, seguindo a página dela no instagram @umamordemulher2, e espere, assim como eu, para conferir tudo o que está por vir.


Um abraço de palavras, e uma ótima semana, meus queridos artistas.


*pansexual – pessoa que, tem atração sexual, romântica ou emocional em relação às pessoas, independentemente de seu sexo ou identidade de gênero. Pessoas pansexuais podem se referir a si mesmas como cegas a gênero, afirmando que gênero e sexo não são fatores determinantes em sua atração sexual ou romântica por outros. *Slam - Poetry slam (traduzido literalmente do inglês, "batida de poesia") é uma competição em que poetas leem ou recitam um trabalho original (ou, mais raramente, de outros). Estas performances são, em seguida, julgadas por membros selecionados da plateia ou então por uma comissão de jurados. * Poesia marginal / transgressora - A Poesia Marginal ou a Geração Mimeógrafo foi um movimento sociocultural que atingiu as artes (música, cinema, teatro, artes plásticas) sobretudo, a literatura. Esse movimento surgiu na década de 70 no Brasil e influenciou diretamente na produção cultural do país.

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